Da Intrusão à Alienação: A Identificaçãocom o Agressor e a Falha na Constituiçãodo Eu na Clínica Decolonial
- Aron Ossamu Ivama
- há 56 minutos
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A psicanálise contemporânea, ao debruçar-se sobre as patologias do vazio e os traumas precoces, encontra no conceito de **identificação com o agressor** uma chave fundamental para compreender as falhas na constituição da subjetividade. Proposto originalmente por Sándor Ferenczi em seu texto seminal "Confusão de Línguas entre os Adultos e a Criança" (1933), esse mecanismo descreve uma resposta desesperada do psiquismo diante de uma intrusão traumática. Para o sujeito em formação, a violência — seja ela física, sexual ou simbólica — imposta por uma figura de autoridade gera um estado de desamparo tão absoluto que a única via de sobrevivência psíquica é a aniquilação da própria subjetividade em favor da introjeção do agressor.
Nesse processo, a criança, sentindo-se impotente e ameaçada de aniquilamento, "desaparece" como sujeito desejante e passa a ocupar o lugar do agressor, antecipando seus desejos, assumindo sua culpa e adotando sua perspectiva. Ferenczi denomina esse fenômeno como uma **autoclivagem narcísica**, onde uma parte do ego se separa para observar e controlar a outra, agora colonizada pela presença do intruso. Essa manobra, embora salvadora no momento do trauma, instaura uma falha estrutural no processo de construção do eu, pois o que deveria ser um desenvolvimento autônomo e espontâneo é substituído por uma estrutura defensiva rígida e alienada.
A identificação com o agressor não é apenas um mecanismo de defesa; é uma forma de **incorporação violenta** que impede a integração do ego. Ao internalizar o agressor para neutralizar o medo, o sujeito passa a tratar a si mesmo com a mesma crueldade ou negligência que recebeu. Essa dinâmica ressoa profundamente com as contribuições de Wilhelm Reich sobre a **couraça caracterológica**. Para Reich, essas defesas não são apenas psíquicas, mas se inscrevem no corpo como tensões crônicas que bloqueiam o fluxo da libido e a expressividade emocional. A couraça é a materialização somática da identificação com o agressor: uma armadura construída para proteger um eu fragilizado, mas que acaba por aprisioná-lo em uma repetição estereotipada de comportamentos defensivos.
Sob a ótica de Donald Winnicott, essa falha na construção do eu pode ser compreendida através da teoria do **Falso Self**. Winnicott postula que, diante de um ambiente que não oferece um "holding" adequado e que, ao contrário, impõe exigências intrusivas, o bebê é forçado a uma adaptação precoce. O Falso Self surge como uma fachada de conformidade (*compliance*) que protege o verdadeiro Self de ser aniquilado. No entanto, quando a identificação com o agressor está em jogo, esse Falso Self não é apenas uma máscara social, mas uma estrutura que opera contra a própria vida do sujeito, mimetizando a agressividade do ambiente para garantir uma existência paradoxalmente baseada na submissão.
André Green amplia essa discussão ao introduzir o conceito de **narcisismo negativo** e a figura da "mãe morta". Para Green, a falha na construção do eu muitas vezes decorre de um desinvestimento súbito do objeto primário, que mergulha o sujeito em um vazio de representação. Quando esse vazio é preenchido pela identificação com um agressor, o sujeito passa a investir na própria destrutividade, num esforço de manter um vínculo, ainda que doloroso, com o objeto. O "trabalho do negativo" torna-se, então, a força motriz de uma subjetividade que se constrói em torno de lacunas, silêncios e desmentidos, dificultando a emergência de um eu capaz de desejar e de se reconhecer como autor de sua própria história.
## A Dimensão Decolonial: Fanon e a Identificação com o Colonizador
É na obra de **Frantz Fanon** que a identificação com o agressor ganha sua dimensão política e social mais contundente. Em "Peles Negras, Máscaras Brancas", Fanon descreve como o sistema colonial opera uma violência psíquica que força o colonizado a buscar a salvação na identificação com o colonizador — o agressor por excelência. Para o sujeito racializado, a construção do eu é atravessada pelo olhar do Outro colonial, que o define como um "não-ser", um objeto de abjeção. Diante da impossibilidade de ser reconhecido em sua humanidade, o colonizado tenta "branquear-se", adotando a língua, os costumes e os valores do opressor na esperança de escapar da zona de exclusão.
Essa alienação psíquica é a transposição sociogênica do mecanismo ferencziano. Se na clínica individual o agressor é uma figura parental ou de cuidado, na clínica decolonial o agressor é a própria estrutura civilizatória eurocêntrica. A identificação com o agressor colonial produz um eu fragmentado, que odeia suas próprias raízes e seu próprio corpo, pois estes são os marcadores da sua inferioridade projetada pelo colonizador. Como aponta Fanon, o negro que tenta ser branco está, na verdade, tentando ocupar um lugar que lhe é negado, resultando em uma neurose estrutural que impede qualquer possibilidade de autenticidade.
> "O negro quer ser branco. O branco se empenha em realizar a condição de homem. Para o negro, há apenas um destino. E ele é branco." (Fanon, 1952). Esta frase sintetiza a tragédia da identificação com o agressor no contexto colonial: a busca por uma identidade que exige, como pré-requisito, a destruição do próprio self.
Nos dias de hoje, essa dinâmica persiste através da **colonialidade do ser**. O racismo estrutural e as hierarquias de saber continuam a impor modelos de subjetivação que privilegiam o padrão branco-cis-heteronormativo como o único horizonte de humanidade possível. A identificação com o agressor manifesta-se, contemporaneamente, na busca incessante por uma meritocracia ilusória, no consumo de padrões estéticos alienantes e na negação das ancestralidades. A falha na construção do eu, portanto, não é apenas um evento biográfico individual, mas um projeto político de manutenção do poder que se vale do trauma coletivo para silenciar subjetividades dissidentes.
## A Clínica como Práxis de Libertação
Encarar a identificação com o agressor sob uma perspectiva decolonial exige do psicanalista uma postura que vá além da interpretação das pulsões. É necessário reconhecer que o sofrimento psíquico está intrinsecamente ligado às estruturas de opressão. A cura, nesse contexto, passa necessariamente pelo processo de **desalienação**. Se a identificação com o agressor foi um mecanismo de sobrevivência, a análise deve ser o espaço que possibilita a desidentificação — o ato de devolver ao agressor (e ao sistema opressor) a culpa e a violência que foram indevidamente introjetadas.
A clínica inspirada em Fanon, Winnicott e Ferenczi busca resgatar o "gesto espontâneo" do sujeito, permitindo que ele saia da posição de objeto da história do outro para tornar-se sujeito da sua própria narrativa. Isso envolve um trabalho de luto pela identidade alienada e a reconstrução de um eu que reconheça sua corporeidade e sua história sem a necessidade de máscaras. A psicanálise decolonial, portanto, propõe uma escuta sensível às marcas do trauma colonial, transformando o consultório em um quilombo psíquico: um lugar de resistência, de acolhimento do desamparo e de reinvenção da vida.
Em conclusão, a identificação com o agressor é um fenômeno complexo que opera na intersecção entre o íntimo e o social. Seja através da falha ambiental winnicottiana, do vazio de Green ou da alienação fanoniana, o resultado é uma subjetividade clivada que luta para existir sob o peso de um intruso. O desafio da psicanálise atual é integrar esses saberes para oferecer uma clínica que não apenas trate os sintomas, mas que colabore na construção de eus autênticos, potentes e, acima de tudo, livres das amarras de seus agressores, passados e presentes.



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